Porfírio Silva
“O tempo, por si só, não produz conhecimento”
Foram anos que para muitos seriam de canseiras, mas para ele foram mais de conhecimento estruturado. Nada da obtenção de dados pontuais e isolados, antes de informação organizada e interligada, de forma a compreender com riqueza o tema que vinha a estudar – e vai continuar – há já 14 anos.
“Hereditariedade e Degenerescência nos finais do séc. XIX e meados do XX em Portugal. Racismo e Direitos Humanos” foi o tema que o prendeu todo este tempo e teve agora o seu término na Universidade Fernando Pessoa-FFP (Porto), concretamente a 8 de junho de 2026, perante um júri que teve como Presidente o Doutor Pedro Alexandre da Cunha Reis, Diretor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa; e como vogais: a Doutora Judite Antonieta Gonçalves de Freitas, Professora Catedrática da Universidade Fernando Pessoa; o Doutor António Bartolomeu Jácome Ferreira, Professor Catedrático do Instituto Universitário de Ciências da Saúde; o Doutor Álvaro Campelo Martins Pereira, Professor Associado da Universidade Fernando Pessoa; e o Doutor José Carlos de Magalhães Loureiro, Professor Adjunto Convidado do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que lhe atribuíram, na área de «Estudos Políticos e Humanitários», a classificação de Muito Bom.

Concluído o doutoramento a que se obrigou, poder-se-ia pensar que agora, na condição de aposentado, vinha o tempo do descanso. Mas ele mante-se fiel ao que há bastantes anos nos afirmou: “investigar, estudar e escrever é-me tão necessário como respirar”. Em toda a entrevista que nos concedeu perpassa a convicção que só o trabalho valoriza o Ser Humano. Para ele, a aposentação apenas veio proporcionar-lhe aquilo que até então escasseava: tempo. Por isso vamos continuar a vê-lo a valorizar-se e a contribuir para a valorização de terceiros.
Porfírio, este Doutoramento é o corolário de um trabalho paciente e pensado ao longo do tempo, ou surge por razões de aposentação, por isso com maior disponibilidade para este tipo de trabalho?
Este Doutoramento resulta, em boa verdade, da convergência dessas duas circunstâncias. O trabalho de investigação iniciou-se há cerca de catorze anos, exigindo um percurso longo de estudo, reflexão e maturação intelectual. Contudo, a sua concretização plena apenas se tornou possível com a aposentação, que me libertou de uma parte significativa das exigências e responsabilidades inerentes à minha vida profissional.
Durante décadas procurei conciliar a investigação com uma intensa atividade académica e científica, prestando apoio a inúmeros investigadores, orientando trabalhos e colaborando em publicações especializadas. Essa disponibilidade para os outros reduzia inevitavelmente o tempo necessário para um trabalho desta natureza, que exige recolhimento, persistência e um diálogo contínuo com as fontes.
A aposentação não constituiu, por isso, o ponto de partida deste projeto; foi apenas a condição que permitiu concluir um caminho há muito iniciado. A investigação séria não nasce da circunstância, mas da fidelidade a uma inquietação intelectual que se prolonga no tempo.
Como defines a tese que defendeste?
A tese constitui uma análise crítica de um passado que, longe de permanecer encerrado na História, continua a manifestar-se sob novas formas e novas linguagens. O seu propósito fundamental consiste em demonstrar como determinadas estruturas de pensamento sobrevivem às épocas, adaptando-se às transformações culturais, científicas e políticas.
O trabalho de investigação reflete não apenas a minha paixão pelo conhecimento nesta área temática, mas também o compromisso de compreender, em profundidade, conceitos particularmente complexos como o darwinismo social, o eugenismo, o positivismo, o conceito de raça e a chamada higiene social. Compreender estes fenómenos significa compreender uma parte expressiva da modernidade e das suas contradições.
A motivação desta investigação reside igualmente na sua inegável atualidade. O estudo das origens e da evolução histórica destes conceitos revela-se indispensável para interpretar os debates contemporâneos sobre direitos humanos, políticas públicas, dignidade da pessoa e justiça social.
Basta percorrer historicamente as teorias raciais e eugénicas para perceber que os mecanismos de discriminação construídos entre os séculos XIX e XX não desapareceram. Transformaram-se. Abandonaram muitas vezes a sua expressão explícita para se revestirem de discursos aparentemente científicos, tecnológicos ou administrativos. A História ensina-nos que as ideias raramente morrem; limitam-se, muitas vezes, a mudar de vocabulário. É precisamente por isso que a Filosofia, ao exercer uma crítica permanente sobre os fundamentos do pensamento, continua a ser uma das formas mais elevadas de resistência à desumanização.
Esta tese obrigou a trabalho aturado ou soubeste ajustar-te com naturalidade a esta nova situação de aposentado?
A aposentação apenas veio proporcionar aquilo que até então escasseava: tempo. Mas o tempo, por si só, não produz conhecimento; apenas cria as condições para que este possa amadurecer.
Uma investigação desta natureza exigedisciplina, paciência e uma permanente disponibilidadepara rever certezas. O conhecimentosério não resulta da rapidez, mas dalenta sedimentação das ideias. A aposentaçãopermitiu-me precisamente esse ritmo maiscontemplativo, onde o pensamento pode desenvolver-se sem as interrupções constantesda vida profissional.
Sentes-te realizado ou nada mais que tranquilo e disposto a aprofundar conhecimento e a produzir obra neste âmbito?
Quem procura verdadeiramente o conhecimento dificilmente o faz em busca de realização pessoal. O conhecimento é, antes de mais, um exercício permanente de humildade.
Recordo frequentemente Nicolau de Cusa, quando afirmava que quanto mais sabemos, mais consciência adquirimos da vastidão daquilo que ignoramos. É essa douta ignorância que impede o espírito de cair na ilusão da omnisciência.
Ninguém sabe tudo. E quando alguém se persuade de que atingiu esse estado, deixa de procurar compreender e passa apenas a confirmar as próprias convicções. Nesse momento, a razão deixa de cumprir a sua função crítica e transforma-se num instrumento da vaidade.
É precisamente essa saudável insatisfação intelectual que continua a mover-me. Não procuro acumular saber, mas aprofundar compreensão. Por isso, sinto-me particularmente motivado a continuar a investigar nas áreas da filosofia da mente, da cognição e da epistemologia, domínios onde cada resposta abre inevitavelmente novas perguntas.
Continuas a escrever regularmente. Que projetos tens para a escrita?
Parar é morrer. Há já alguns anos afirmei, numa entrevista a este jornal, que escrever me é tão necessário como respirar. Continuo a pensar exatamente da mesma forma. A escrita não representa apenas um exercício literário; constitui uma forma de pensamento em movimento, uma disciplina da inteligência e uma responsabilidade perante a memória.
Escrever implica ler, interpretar, investigar e regressar continuamente às fontes primárias. É aí que reside a possibilidade de preservar a identidade, fortalecer a memória coletiva e defender a liberdade contra o esquecimento e a simplificação.
Pretendo continuar esse percurso, aprofundando as investigações já iniciadas e alargando-as aos domínios da geopolítica, da guerra e dos processos históricos e filosóficos da desumanização. Num tempo marcado pela aceleração da informação e pela superficialidade do debate público, torna-se ainda mais necessário compreender as raízes profundas dos conflitos e das ideias que os sustentam.
Para ti, este é um tempo que sabes bem preencher ou que, de alguma forma, transporta aborrecimento?
Não. Entre livros, documentos e investigação dificilmente existe espaço para o aborrecimento.
A aposentação libertou-me sobretudo das pressões exteriores e devolveu-me um bem particularmente precioso: o tempo para pensar. E pensar exige silêncio.
Talvez tenha adquirido uma certa condição de ermita voluntário, mas essa solidão nunca significou isolamento. Pelo contrário, representa uma forma de diálogo permanente com os grandes autores, com a História e com as ideias. Há uma fecundidade própria no recolhimento. Quem faz da leitura, da investigação e da reflexão um modo de vida dificilmente conhece o tédio, porque o pensamento, quando verdadeiramente desperto, encontra sempre novos horizontes para explorar.
GFM
(In, A AURORA DO LIMA, Ano 171, Número 23, quinta-feira, 02 de julho de 2026, p. 18)